o desalento da minha repetição
falo pouco, pois acho que finalmente estou próximo de esgotar o assunto você. na verdade, não é que o assunto quase se esgotou. eu ainda gosto (mais do que deveria) de reclamar de você, faço a sua caveira para não me esquecer do quanto também foi ruim, faço a sua caveira porque a minha nostalgia me engana e me conduz de volta a você, sempre.
infelizmente, não é que o assunto quase se esgotou. é que simplesmente não há informações novas, então me repito, mas se repito, não está esgotado. e já estou de repente cansado de repetir. a mesma toada, a mesma ladainha. mas de repente esse assunto não se esgota nunca, meu bem.
uma pessoa repetitiva, desalentada, que esmiuça e escamoteia o próprio sofrimento. me demoro lambendo as minhas feridas e tenho medo de que a busca pelo sofrimento familiar me conduza de volta a você, ainda.
parou tudo.
eu vi você anteontem e fingi que não havia acontecido nada demais. eu vi você anteontem e descobri que ainda seria possível te amar. eu faria essa escolha, sempre.
eu vi você anteontem e um terremoto me chacoalhou com a verdade que eu quero evitar. talvez eu te ame sempre porque um amor como o nosso nunca morrerá realmente. embora façamos escolhas diferentes e trilhemos caminhos separados, a ponto de sermos mais uma vez estranhos um para o outro, estranhos como um dia já fomos e tornamos novamente a ser, apesar disso, eu faria a mesma escolha, ainda.
mas há um custo enorme. o custo da minha liberdade. de poder cantar sem ser avaliado e criticado. de poder dançar sem ser chamado de estranho. de poder dizer e escolher sem que alguém esteja o tempo todo me lembrando se me valida ou não. o custo de poder receber meus pais e meus amigos, com quem você sempre implicava. o custo da minha casa limpa, já que organização não era o seu forte. liberdade de me reinventar para além das caixinhas que fizemos para nós mesmos. o menino muito mais novo, e por isso inseguro e submisso, não existe mais, você precisava entender. você precisava ter entendido.
você não entende, sempre. e eu me lembro, ainda.
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