hoje você me entregou a cópia da chave da minha casa, a cópia que eu havia deixado com você, e chorei mais um pouquinho. não te digo, pois acho que você teria gostado de saber que eu chorei. ao mesmo tempo, quero te dizer. quero que você me veja ridículo, pequeno, quero que você veja o estado em que me deixou, quero que se castigue e que se culpe, quero muitas coisas ruins que já não são sobre amor, mas sobre desespero. você está certo em se afastar de mim. neste momento, não sou digno de confiança e sou um perigo até para mim mesmo. aliás, nada de "até". eu sou a principal vítima do meu ódio, raramente os outros. se às vezes respinga em você, é porque derramar todo o ódio sobre mim mesmo não foi suficiente, de forma que a dose que chega a você já é uma dose controlada, não passa de um resto, você não faz ideia, não sabe o tamanho da minha fúria.
eu me torturo com as lembranças da família que constituímos e da parceria que fundamos, eu me entrego ao desânimo e não faço nenhum dos meus deveres porque já não há sentido em fazer qualquer coisa que seja, eu não tomo banho e não escovo os dentes, eu faço compras impulsivas e me vejo com dificuldades financeiras, eu só não me mordo, não me corto e não me arranho, mas faço tudo isso de outras maneiras, me puno por ter permitido que nosso amor descesse pelo ralo, por ter assistido de camarote a esse gotejamento persistente e por ter torcido por ele, torcido para que derramasse logo tudo de uma vez, eu pensava que eu seria algo melhor sem você, você que me asfixiava, você que me fazia sentir sem futuro. olha pra mim agora, essa coisa indigna. que futuro eu tenho? era isso que ficaria melhor sem você? quero te contar para que você possa rir e para que você possa se reconfortar, para que se sinta vingado. não é justo, mas é assim que as coisas são. você me humilhou e me diminuiu inúmeras vezes, mas não tolerou a única vez em que te devolvi, e olha que te devolvi em segredo, mas você procurou, você quis saber, você queria um motivo, aqui está o seu motivo, agora está tudo acabado e você está satisfeito e eu não sinto nada, estou morto.
não te digo, pois você teria gostado de saber disso.
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