sou ainda aquela criança

sou ainda aquela criança
cujo olhar revela uma sentença,
carta marcada:
sofre calada

sou ainda aquela criança
a quem se dizia:
é feio chorar quando se tem tudo
sou, por isso,
um adulto mudo

sou ainda aquela criança
a quem se dizia:
você teve sorte,
esta é a melhor versão do seu pai,
mas não era isso que eu sentia
quando ele me corrigia,
quando ele temia
uma mancha
no seu legado:
um filho viado

sou ainda aquela criança
que temia ser abandonada
e era, por isso, muito doce
e também autoritária -
de qualquer forma,
ao fim do dia,
reinava solitária

sou ainda aquela criança
que desesperadamente
deseja ser amada

sou ainda aquela criança
a quem se dizia privilegiada
ela tem pai, ela tem mãe,
eles trabalham, eles se amam,
ela tem isto:
futuro

sou ainda aquela criança
a quem se dizia privilegiada
sobre quem se fantasiava:
ela tem tudo,
ninguém enxergava o furo
a não ser uma avó,
a velha disse um dia
que a criança traria
uma grande decepção

se a velha errou ou acertou, 
isto não vem ao caso, mas
é preciso dar-lhe certa razão

sou ainda aquela criança
com um sopro no coração 

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