desta vez o meu luto se recolhe
separar-me de você pela segunda vez tem sido mais difícil do que pela primeira em alguns aspectos.
é que da primeira vez, nos despedíamos de um relacionamento de cinco anos, publicamente reconhecido e admirado. fazia todo o sentido que eu chegasse chorando ao trabalho, com a cara tão inchada quanto a de um baiacu que de repente se vê em perigo, e solicitasse a dispensa do dia por não ser capaz de encarar uma turma de quarenta alunos. fazia todo o sentido que as minhas feições deixassem escapar uma pessoa demolida, beirando o desatino. amigos e conhecidos me enviavam mensagens carinhosas, como se eu tivesse acabado de perder o marido — e era de fato o que tinha acabado de acontecer. fazia todo o sentido que eu me sentisse sem chão, sem pão, sem rumo, e eu, que sempre guardei muito bem os dramas e lágrimas pra minha intimidade, me flagrei chorando em público algumas vezes, com uma facilidade que até me assustava.
mas da segunda vez, não é bem assim.
nesta segunda vez em que nos separamos, as lágrimas não se deixam despencar em público. eu não deixo de exercer o meu ofício, embora sinta que posso fraquejar a qualquer momento. não chegam mensagens carinhosas de amigos e conhecidos, e não porque, a essa altura, estão fartos do meu drama de proporções continentais. mas porque ter permitido que você voltasse à minha vida não deveria sequer ter sido cogitado como uma possibilidade. não houve apoio a esse retorno envergonhado, que contei a tão poucos, o que já diz muita coisa por si só. meus amigos tinham a mesma opinião sobre o assunto: não valia a pena. "vale", eu dizia — mas quando escrevi este texto, saiu "vala", veja bem. eu sabia muito bem a enrascada em que estava me metendo, que permitir que uma reaproximação acontecesse em um momento de fragilidade seu só faria me machucar, que aquela situação definitivamente não cheirava bem. ele só precisa de um tempo, eu dizia, está passando por muita coisa, mas pelo menos estamos juntos, e vou estar aqui quando tudo isso passar, ele vai voltar comigo quando melhorar, ele vai reconhecer o meu amor, ele vai perceber que podemos superar as dificuldades que tivemos, se assim quisermos...
desta vez, não choro em público porque há tanta vergonha quanto dor.
desta vez, não há ninguém que lamente que tenhamos, mais uma vez, nos separado. nem mesmo você.
ninguém que soube de nós acreditou realmente em nós. nem mesmo eu.
da primeira vez, o meu luto era legítimo. desta vez, o meu luto se recolhe.
e com ele eu me encolho. da mesma forma que me encolhia quando tentava caber nos pequenos espaços da sua vida que você reservava para mim. os pequenos espaços de amor e significância que vinham a calhar enquanto você precisava de mim.
como numa vala suspeita de algum lugar por aí, habita em mim um odor fétido, que muitos não sabem exatamente a decorrência, embora tenham suas suspeitas.
um corpo morto que não se pode mais ressuscitar.
um corpo morto. pesado. tumoroso.
nos meus ombros. todos as manhãs. todas as noites. todos os dias.
que não desperta outro sentimento. a não ser: "não te disse?".
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