em um supermercado qualquer (me lembrei que já fui a sua família)

Eu bem que tentei, adiei o máximo que pude, mas hoje não teve jeito: precisei ir ao supermercado. Enquanto passava por um corredor com numerosas prateleiras de salgadinhos, avistei um casal que se perguntava qual salgadinho deveria levar. Fandangos? Ruffles? "Eu gosto mais deste aqui", o homem apontou para um salgadinho de cor vermelha. A mulher pegou aquele e mais outro, que ela disse ser o seu preferido. Quase fui às lágrimas. Uma cena patética. Ridícula.


É que me lembrei das tantas vezes em que fomos ao supermercado juntos e tivemos a mesma discussão, pensando no que poderíamos beliscar para passar a noite, enquanto assistíamos a algum filme ou qualquer outra porcaria na TV. O objetivo, na verdade, era outro: curtir a companhia um do outro. Se eu tivesse opção, teria abandonado o carrinho ali mesmo e desaparecido. Ainda não entrei em acordo com a minha culpa, e assim como me lembro desses pequenos planos, que desenhavam o nosso cotidiano e os traçados do nosso amor, me recordo também das tensões que envolviam ir ao supermercado com você. Você gostava de ir bem cedinho, assim que o supermercado abrisse, para que pegássemos a menor fila possível. E acordar cedo pra mim é tortura, quem me conhece, sabe bem. Muitas vezes fui ao supermercado de mau humor ou muito indisposto, e acabávamos brigando por algum motivo idiota. Aliás, muitas brigas aconteceram por motivos idiotas. Não sei explicar. Reconheço o quanto o nosso cotidiano de casal era, muitas vezes, opressivo pra mim. Nos últimos dois anos, eu me sentia, com alguma frequência, reprimido, invisível, às vezes até humilhado. Mas ao mesmo tempo, hoje, choro no corredor de salgadinhos, porque sei que não fomos apenas isso. E porque sei a dimensão daquilo que eu perdi. Eu era a sua família. E você era o meu porto seguro também. E quem disse que isso tinha importância? Mesmo assim, brigávamos por futilidades e nunca pedíamos desculpas.

Hoje, eu não sou mais a sua família. Você não é mais o meu porto seguro. Eu estou aqui, amputado. Mal consigo manter a compostura diante de uma cena banal em um corredor de um supermercado qualquer.

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