e eu me (res)sinto
de alguma maneira, estes dias conseguem ser ainda piores do que aqueles que já passaram. aquela máxima tão gasta, “o pior já passou”, parece ser simplesmente inaplicável à minha vida, inaplicável a mim, ainda com todos os membros fracos e inertes, eu, que ainda estanco o sangue.
uma coisa já foi decidida: é preciso deixar a posição de ressentimento. pois o meu ressentimento me implica a você. e me faz, todos os dias, (res)sentir tudo que se passou entre nós. não é preciso apenas te perdoar, é preciso me perdoar. é preciso que eu me entenda como alguém implicado em nosso fracasso. é preciso que eu entenda que eu, de fato, demandei demais, eu, que tinha muita voracidade em matéria de amor. não havia como alguém dar conta disso. é preciso ainda que eu reconheça todas as vezes que te responsabilizei quando a responsabilidade não era apenas sua, mas compartilhada entre nós dois. é preciso que eu me reaveja com o fato de que, quando você mais precisava de mim, eu estava ocupado demais, te punindo.
libertar-se do ressentimento parece quase tão dolorido quanto estar agarrado a ele. todo o amor por você antes contido, à maneira de uma represa, flui agora livre e sem impedimentos. mas já não há você do modo como havia antes.
caminho pelos bares e calçadas do bairro em que moramos e sinto medo. fantasio que, sem querer, descubro que você tem outra pessoa. outra pessoa que não sou eu. fantasio que você ri das piadas que ele conta. fantasio que você chama ele para dormir ao seu lado. fantasio que você fode com ele como gostava de foder comigo. fantasio que você se orgulha dele, como um dia se orgulhou de mim.
fantasio que você é o tipo de pessoa que retorna. fantasio e engano a mim mesmo. você jamais voltaria comigo, pois você não é o tipo de pessoa que olha para trás. e eu me (res)sinto por saber que você não vai voltar.
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