sinto falta do nosso futuro
é estranho olhar para fotos antigas e perceber que já fomos felizes um dia. perceber algo há muito tempo esquecido: um dia, já me senti a pessoa mais feliz do mundo ao seu lado. um dia já tivemos um relacionamento que não estava em franca decadência. você se orgulhava de mim e postava fotos comigo nas suas redes sociais. você ainda não me humilhava na frente dos outros, não me desrespeitava nem fazia ainda aqueles típicos comentários ácidos que você empunhava como uma arma contra mim.
as fotos congelaram perigosamente esses momentos. você mais jovem, você mais magro, você que se cuidava, você que se preocupava, você que limpava a casa, você, o homem com quem eu morava, você, o homem que eu tanto amava, você, de quem eu tanto me orgulhava, você, que não nos abandonava. você, que sorria nas fotos, você, que fazia caretas ao meu lado, você, que me abraçava, você, quente e aconchegante, você, tão confortável.
essas fotos congelaram esses momentos para sempre. olhar para elas traz a sensação de que estou olhando para outra vida. parece que faz muito, muito tempo. quando parecia haver tanto futuro à frente de nós. quando parecia haver um futuro à minha frente, o único futuro possível, o único futuro que importava: aquele que eu dividiria com você. agora eu não já não vejo mais nada.
esse futuro não aconteceu como esperávamos. nossas fotos juntos rareavam ano após ano… como rarearam também os abraços, que já não pareciam quentes ou aconchegantes. eram frios. gelados. sobretudo, desencantados.
a vida pesou demais sob os nossos ombros. gostaria que a vida tivesse sido mais gentil com a gente. gostaria que pudéssemos ter sido mais gentis com a gente. mas não adianta mais, foi há muito tempo.
em insista em mim, ana frango elétrico canta: “eu amo suas mãos / que desenham seu ex / eu amo seus pés / que viajam sem mim”. lembro que você já me desenhou um dia. que uma foto minha já foi o plano de fundo do seu computador. que uma foto nossa já foi o plano de fundo do seu celular.
mas de que serve a lembrança, foi há muito tempo. e eu nem lembro mais como eram suas mãos ou os seus pés… na verdade, ainda me lembro um pouco dos pés. aos poucos vou me esquecendo, me desespero por estar esquecendo, mas preciso esquecer.
e de nada me servem as lembranças.
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