eu não mereço essa gentileza

as pessoas têm sido gentis demais comigo. elas me abraçam e me dizem que estou a cada dia mais lindo e mais radiante. que pareço liberto, que pareço mais magro, que pareço ter recuperado o brilho e o viço que eu havia deixado escorregar em algum ponto do nosso casamento fracassado. eu me pergunto como elas não veem as bolsas crescentes embaixo dos meus olhos. eu me pergunto como elas não veem que estou extenuado, que meu corpo é um corpo saído de uma batalha, uma guerra em que foi inquestionavelmente derrotado. eu me pergunto como elas não percebem que o que veem é, talvez, uma sombra, um autômato, um zumbi, mas não eu. alguma coisa foi deixada para trás quando te deixei, meu bem. e como são preciosas as coisas que perdemos e que não temos mais, essas coisas que nos deixam nus, essas coisas que só fazem ressaltar o buraco, o vazio que há em nós.

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