Preciso ser duro comigo mesmo
Preciso ser duro comigo mesmo. Eu sou como a roupa agarrada à máquina de lavar que foi esticada até quase rasgar-se por inteiro. Tenho sido centrifugado, sem resistência, em torno do mesmo eixo, e esse eixo é ninguém mais nem ninguém menos do que você. Você era o eixo da minha vida, em torno do qual eu rodava e rodava feliz. Tão feliz por compartilhar a vida com você.
Mas agora que não há você, eu só faço rodar, rodar sem direção nem felicidade alguma.
Preciso ser duro comigo mesmo e admitir que tenho agido de forma horrível e sacana. Preciso reconhecer que sou como um viciado em abstinência da droga da sua voz, da sua mente, do seu corpo. Quero que me deixe provar do cigarro novamente. Quero sentir a fumaça quente na minha boca. Como um homem desesperadamente em abstinência, quero tudo que venha com você, inclusive as partes ruins, das quais prometo não reclamar.
Como um homem desesperadamente em abstinência, vivo em delírio. Em um desses delírios, estamos no futuro. Nós lavamos a louça juntos, achando graça de como quase desistimos um do outro. Rimos porque a ideia de abandonarmos um ao outro nos parece absurda, e nada melhor para provocar o riso do que o absurdo.
Queria que falar de você no passado não fosse nada além de uma piada de mau gosto. Queria acordar e voltar no tempo, para nossos corpos respirando em uníssono, descansando pesadamente sobre a mesma cama e sobre os mesmos lençóis.
Como um homem desesperadamente em abstinência, ajo por impulso e digo barbaridades para chamar a sua atenção. Queria que você me fizesse esquecer que assinamos, no dia do seu aniversário, 29 de agosto, o aditamento do contrato de locação daquele apartamento em que moramos juntos, excluindo o meu nome da lista de inquilinos. Não temos o papel do divórcio, meu bem, então este papel estúpido é a prova concreta da nossa separação. É o último passo que nos restava. Estou livre agora, mas não tenho chão. Só faço rodar, rodar em torno do mesmo eixo. Sem direção.
Como um homem desesperadamente em abstinência, estou em ruínas sem você, dependente dos seus efeitos nocivos sobre mim para sentir que ainda há sentido para a vida.
Amanhã poderia ser um dia qualquer. Mas sei que vou acordar em abstinência de você. E com o peso do céu sobre a minha cabeça.
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