na minha mancha, um girassol

certa noite, em uma madrugada em que nos enroscávamos um no outro, muito chapados de amor e de maconha, eu confessei algo sobre as minhas estantes: eu preciso do vazio. quando uma estante fica preenchida, sem espaços, eu sei que é momento de separar alguns livros para doação. isso não significa que minhas estantes sejam minimalistas. de forma alguma. elas são mais ou menos (des)ordenadamente habitadas por muitos livros e cacarecos.

você foi o primeiro homem quem ouviu essa confissão e não riu. não surgiu nenhum ponto de interrogação em seu rosto. nenhum sinal de estranheza.

você apenas respondeu: "eu te entendo. eu também preciso do vazio".

e aquela frase mudou tudo. porque eu nunca tinha estado antes com um homem cujo vazio conversasse com o meu. naquela noite, os nossos vazios se encontraram. eu estava muito chapado de maconha, mas sobretudo de amor.

e aí tem aquela história da manchinha nas minhas costas em que você sempre viu, na verdade, um girassol.

outros homens viram somente uma mancha. certos homens nunca nem a notaram. alguns, imagino, a acharam rude, extravagante, mas não você. você desenhou um girassol sobre a minha mancha.

eu sei que você vai desenhar muitos girassóis na vida de alguém. eu só estou muito triste que esse alguém não será eu.

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