envenenamento (ou sobre como me abandonei depois que eu fui embora)
eu me abandonei. eu fiquei dias sem tomar banho. eu não cuidei bem dos meus dentes nem do meu cabelo. eu não tirei o pó dos móveis e não varri a casa. eu sentia como se tivesse morrido. ter me separado de você por uma segunda vez foi demais pra mim. não sei quem está no comando agora, mas certamente não sou eu. não passa de uma sombra de mim, uma sombra que não dá um terço do meu real tamanho. uma figura escondida, curvada, deprimida.
estou tentando espantá-la. fiz a primeira faxina dos últimos trinta dias. pequenos passos. tentando voltar à vida. encontro o cadáver de um escorpião. fico em choque.
me pergunto há quanto tempo aquele cadáver esteve ali. me pergunto por quanto tempo ele viveu sob o meu teto, junto à minha cama, antes de finalmente dar o último suspiro. percebo o perigo que eu corri, sem perceber, já que eu mesmo havia me abandonado. sobretudo, desejo que ele tivesse me atacado. que tivesse me beliscado de surpresa, de maneira que eu mal o percebesse e não tomasse conhecimento da gravidade da picada. uma maneira gloriosa de se deixar envenenar... sem ter que tomar a dianteira do processo.
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