Meus pés não tocam o chão

Sou vários. E isso não me torna especial. Sou vários, como quem quer que seja. Tenho múltiplas, um sem-número de versões, e quem diria, você veio a se apaixonar por uma delas. Eu também me apaixonei por uma das suas. Um encontro mítico. Improvável. Único.

Mas eu era inexperiente no jogo do amor, meu bem. E achei que, para que você ficasse, eu só poderia assumir esta única versão de mim: aquela que te fez querer ficar. Eu não soube o que dizer quando você demonstrou pouco apreço pelas outras versões de mim. Eu não soube o que fazer quando você demonstrou pouca curiosidade pela minha linguagem. Apequenar-me era a única resposta que eu conhecia. Era a minha única saída, caso eu quisesse ficar com você.

Eu quis muito. Eu quis tanto. Depois não quis mais. Talvez você também não. Eu tornei a tentar. Um esforço que não se mede a não ser pelo tamanho do meu luto. Um amor que não se mede a não ser pelo meu grau de desorientação. Um amor nulo, vão, sobre o qual nunca vão dizer qualquer palavra. Que ninguém mais saberia reconhecer. Mas eu ainda reconheço. Não tenho outra alternativa que não seja reconhecê-lo em sua ausência, pois ainda deixo de senti-lo quando meus pés tateiam o chão, buscando um caminho seguro por onde se enveredar, à procura de um lar seguro por onde se abrigar. Mas meus pés não tocam o chão, e por isso, não saio do lugar. Fico aqui, com os meus pés exatamente onde estão. 

Tem sido assim há algum tempo, desde que eu decidi partir.

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