saco de ossos desorganizados (ou como eu preciso que você levante a mão pra mim)

é de grande serventia
saber quando se deve ir embora
eu nunca aprendi a ler corretamente
as horas

eu sou analfabeto disfuncional, o pior tipo de analfabetismo, eu leio, escrevo, não entendo nada e ainda me desorganizo, sou corpo desorganizado, sou corpo? não me sustento, desmorono. não tenho esqueleto, sou um saco de ossos, não tenho serventia alguma e ainda perco você, como pude deixar isso acontecer? assim como um cão, você me lambeu e me mordeu, você me usou e me cheirou e me fez promessas vãs, e eu te pergunto o que você fará comigo agora, com esse saco de ossos desorganizados que não compõem estrutura nenhuma que seja útil. não é culpa sua, eu sou assim, eu me desmonto, você é tão lindo e nem perde tempo procurando entender que osso faz parte do quê, você é o céu azul e é também a tempestade, e é também apenas um cão que quer um pouco de diversão, e eu preciso que você faça um pouco mais do que isso, eu preciso que você me machuque para além de qualquer possibilidade de reparação, é tarefa bem simples, eu preciso de uma contusão, uma fratura exposta deve dar conta do recado. eu preciso que você me soque e grite comigo, pois assim consigo ter um pouco da sua atenção. eu jamais te denunciaria, eu estou acostumado a ser quebrado, eu sempre fui um tanto errado, eu sempre fui incorrigível, eu nunca fui exemplo, eu levo todos os dias flores ao túmulo de quem eu poderia ser, mas não sou, e não posso lidar com essa culpa, não posso lidar com o fracasso, não posso lidar com o fato de que você não me ame, não posso lidar com o fato de que você não me queira mais. então me desculpe, mas preciso que você seja a tempestade. quero ter medo de você, pois esse evento seria o auge de uma vida desimportante. ser escolhido dessa maneira. se não for para me desejar, então preciso que você me bata, pois isso me daria alguma importância. se você me agredir, eu não revido, eu vou entender que eu mereço. eu te convido a quebrar e moer esse conjunto de ossos e, em troca, eu prometo jamais contar pra ninguém que você foi capaz de tamanha gentileza por mim.

em troca, eu jamais seria capaz de te esquecer. o primeiro homem que me deu a importância devida, que levantou a mão para mim, me machucou e me chutou e trouxe algum sentido a um saco de ossos desorganizados.

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