quanto aos escombros
foi muito antes da nossa vida perfeita desabar como castelo de areia.
e muito antes das fissuras e trincas nas paredes, do mofo impregnado e do odor que só as coisas velhas têm, dos estalos constantes que prenunciavam a corrosão das vigas do prédio. eu notava, mas não agia; eu silenciava diante da iminência do desabamento do edifício.
éramos ainda jovens, fortes e cheios de esperança. você se lembra de quando ainda tínhamos esperança?
pintamos o apartamento juntos. o trabalho todo foi feito muito mais por você do que por mim, é verdade. organizando as mudanças em caixas, pintando as paredes e retocando o rejunte, você me desejava e eu te desejava, você sem camisa, você que dava o sangue, você ao meu lado, você cabia direitinho no meu futuro, meu bem. o trabalho com a reforma era interrompido porque eu não resistia a você, e você até tentava, mas também não resistia por muito tempo. exaustos e felizes, levavámos algum tempo para retomar a reforma.
você se lembra disso? de quando éramos jovens e fortes e tínhamos esperança no futuro? isso foi antes, muito antes das rupturas que fizeram o nosso edifício ruir.
às vezes, acho que ainda não fui encontrado em meio aos escombros.
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